Liderança feminina: por que é importante ter líderes mulheres?

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A desigualdade de gênero é uma das injustiças a serem combatidas diariamente. Para isso, políticas que promovam a liderança feminina precisam ser implementadas tanto quanto as em favor da diversidade em outros aspectos (racial, sexual, anti capacitista, entre outros).

Como parte da luta pela diversidade de modo geral na sociedade, a inclusão de líderes mulheres no mundo corporativo é um passo essencial e urgente. Mas a liderança feminina no Brasil ainda engatinha, quando olhamos para os números.

Quais são os números da liderança feminina no Brasil?

A pesquisa “Sem atalhos: transformando o discurso em ações efetivas para promover a liderança feminina”, feita em parceria entre a consultoria Bain & Company e o LinkedIn, levantou dados que ilustram o cenário atual do nosso país em relação à liderança feminina.

Divulgada em 2019, a pesquisa mostrou que somente 3% dos cargos mais altos nas empresas do Brasil são ocupados por líderes mulheres. Em 2018, o IBGE revelou, inclusive, que ao considerar todos os cargos gerenciais, apenas 38% deles continham liderança feminina.

Em outubro de 2020 foi a vez da Catho publicar um levantamento sobre a disparidade de gênero. O estudo constatou que líderes mulheres têm salários 23% menores do que os dos homens, em média. E o padrão se repete em outros cargos, como Especialista graduado (-35%), Analista (-34%), Especialista técnico (-19%), Coordenador (-15%) e Especialista operacional (-13%).

Quando perguntados sobre o tema, 82% das mulheres e 66% dos homens consideram que a igualdade de gênero deve ser uma das prioridades das organizações. Apesar disso, somente 41% delas e 38% deles relatam que as empresas onde trabalham tratam o assunto com essa ênfase.

De onde vem a desigualdade entre homens e mulheres?

O contexto histórico da disparidade de gêneros que impacta na promoção de lideranças femininas pode ser observado em vários momentos, desde o que se sabe sobre a pré-história até os dias atuais. Alguns pontos são, entretanto, mais definitivos para essa discussão.

Em “O Segundo Sexo”, Simone de Beauvoir fala sobre a primeira vez em que a mulher foi colocada abaixo do homem na realização de tarefas. Na idade da pedra, ambos eram igualmente relevantes à sobrevivência, atuando na sustentação de suas casas e modos de vida. Mas, depois da descoberta de outros materiais, como o ferro e o bronze, as tarefas dos homens mudaram e, consequentemente, a estrutura da sociedade também.

Essa é a primeira vez em que se pode observar, na história, um contexto em que determinadas tarefas eram mais “indicadas” aos homens, por possuírem características físicas que, à época, os colocavam em uma espécie de “vantagem”.

É importante observar que, até hoje, a mesma justificativa é utilizada para favorecer a desigualdade de gênero. E durante a maior parte da história da nossa civilização, os homens se beneficiaram desse aspecto para ocupar posições mais vantajosas e de maior relevância, sendo que seriam eles os responsáveis por sustentar suas casas e famílias e, nesse cenário, o papel das mulheres era menos importante.

Deste lugar de poder, os homens também foram os únicos a poder participar ativamente da economia e da política, deixando as mulheres sem ferramentas para mudar suas realidades. Esse silenciamento das mulheres gerou um padrão cultural, uma espécie de tradição inconsciente, que privilegia os homens em detrimento das mulheres.

Para se ter uma ideia, foi só nos séculos XVIII e XIX, com a Revolução Industrial, que começamos a observar na história os primeiros indicativos de avanços rumo à participação feminina no mercado formal. As condições de trabalho precárias da época acabavam, contudo, expondo-as a um contexto degradante.

Somente após a Primeira Guerra Mundial, anos depois, é que a inserção das mulheres nas organizações ganhou força mais contundente. Isso se deu pela popularização do movimento sufragista, que visava principalmente o direito ao voto para o público feminino. No Brasil, o primeiro alistamento eleitoral feminino se deu em 25 de outubro de 1927, há menos de 100 anos, mas só na constituição de 1934 foi que as mulheres puderam exercer seu direito de voto legalmente.

Este foi o ponto de partida para a evolução constante que se observou na sequência. As mulheres passaram a assumir a liderança de seus lares – principalmente pela perda dos maridos nas guerras travadas pelo século XX – e alcançaram, aos poucos, avanços no âmbito educacional.

O acesso político e ao ensino superior colocou as mulheres em melhor posição para ocupar cargos nas companhias, que surpreendentemente ainda oferecem resistência à equiparação dos gêneros em suas posições, cargos de liderança e, principalmente, salários.

Fato é que, enquanto a mulher recuperava anos de ostracismo imposto e atingia capacitação técnica e direitos mais igualitários, seus outros atributos naturais foram trabalhando para destacar suas capacidades profissionais. Habilidades como mediação de conflitos, adaptabilidade e sensibilidade têm popularizado a liderança feminina atualmente.

Quais são os principais desafios enfrentados pelas líderes mulheres?

Nenhuma mudança vem sem obstáculos e resistências. No caso da liderança feminina, pode-se listar alguns dos maiores desafios que as impedem de alcançar ou se manter em posições de liderança. Elencamos, abaixo, os quatro maiores desafios que as mulheres líderes precisam superar.

Desafio #1: Preconceito

Esse é o mais óbvio dos obstáculos na luta contra a desigualdade. No caso de líderes mulheres, até pelo contexto histórico que já citamos, o principal preconceito a ser superado é o de que o trabalho realizado por mulheres é, de alguma forma, inferior ao realizado pelos homens.

A discriminação institucionalizada contra a liderança feminina ou sua simples presença em alguns meios faz com que muitas atitudes preconceituosas sejam praticadas até inconscientemente. Principalmente em áreas tradicionalmente masculinas, como tecnologia ou finanças. 

Desafio #2: Estilo de liderança questionado

Não é surpresa que, por tentar implementar estilos mais flexíveis de gestão, lideranças femininas sejam desacreditadas e criticadas. Afinal, elas entram em conflito direto com abordagens tradicionalmente masculinas, frequentemente mais rígidas, centralizadoras e controladoras.

Outra vez coloca-se em prova a força da mulher em comparação com um aspecto bruto e animalesco. Com isso, cria-se a dificuldade de aceitar lideranças femininas e questiona-se frequentemente suas capacidades, desautorizando os métodos de mulheres líderes, desrespeitando-as e desqualificando-as.

Desafio #3: Jornada dupla com a vida familiar

Outro desafio das mulheres líderes – ou mesmo das que exercem qualquer cargo profissional – é a jornada dupla. Isso porque ainda é a mulher quem dá conta das demandas de casa, mesmo quando assume a mesma jornada que os homens na vida profissional.

Não que os homens não tenham demandas de ordem pessoal ou que nunca se responsabilizem por tarefas de casa, por exemplo, mas é mais frequente que as mulheres assumam essas funções. Assim, fica sobre elas a responsabilidade da liderança feminina e da gestão familiar sem nem colher os créditos disso, tamanha a desigualdade da atribuição de tais tarefas.

Desafio #4: Saúde mental e autossabotagem

A quebra de padrões preconceituosos acontece com grande custo por parte dos agentes que lutam contra injustiças. Mulheres que se impõem contra a desigualdade de gênero enfrentam uma resistência muitas vezes violenta por parte de quem não aceita ter seu privilégio questionado. Isso além da inferiorização sistêmica que enfrentam desde sempre.

Por isso, pelo medo de falhar, pelos ataques e violências é que, por muitas vezes, as mulheres acabam nem assumindo posições de liderança. A pressão social para que elas sejam as principais responsáveis pelo cuidado da casa e dos filhos também acaba pesando nessa decisão. O medo é não dar conta de tudo ao mesmo tempo.

Com críticas desmedidas e destrutivas, constante questionamento e desrespeito de suas habilidades e resistência maior do que a que os homens enfrentam para assumir cargos maiores, as mulheres precisam superar, além de tudo, os impactos dessa luta na sua saúde mental.

Quais são as vantagens da liderança feminina?

Esse tópico pode parecer desnecessário, já que, na luta pela igualdade, características de liderança não deveriam ser categorizadas como femininas ou masculinas. Entretanto, como é necessário reforçar o espaço da mulher no ambiente corporativo – bem como em outros setores da sociedade -, vale ressaltar algumas características gerais observadas em líderes mulheres.

Por que é importante promover a liderança feminina?

Hoje, as mulheres sustentam financeiramente 45% das famílias brasileiras. Mas, como visto acima, essa porcentagem não está nem perto de quantas delas alcançam cargos de liderança ou mesmo a equidade salarial em comparação com os homens. Só por isso, já temos aqui uma necessidade social da valorização da liderança feminina.

Em dados brutos, com informações da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da consultoria McKinsey, tem-se as seguintes projeções:

  • OCDE: se as mulheres obtiverem equidade salarial, estima-se um aumento do PIB mundial da ordem de US$ 6 trilhões;
  • FMI: o PIB global cresceria 35% com a igualdade de gênero nas relações de trabalho;
  • McKinsey: organizações que possuem equipes executivas com equidade de gênero têm 14% mais chances de superar a performance dos concorrentes; e aquelas em que os funcionários percebem maior equalização entre as oportunidades para mulheres e homens possuem 93% maior probabilidade de obter um desempenho financeiro superior ao da concorrência.

Prova-se, por diversos lados, que a importância da promoção da liderança feminina é, além de tudo, necessária para melhorias sociais e econômicas.

Quais são as principais características da liderança feminina?

Antes de mais nada, outro reforço: esse tópico não vem reforçar estereótipos de qualquer tipo, nem favoráveis e nem desfavoráveis à liderança feminina ou masculina. Aliás, este é um dos obstáculos que as mulheres enfrentam diariamente na busca por cargos de liderança.

Ainda assim, listamos abaixo algumas características que, geralmente, são potencializadas quando líderes mulheres assumem uma equipe, departamento ou empresa.

  • São mais cooperativas: por precisar lidar com muitas demandas ao mesmo tempo, líderes femininas tendem a demandar mais e trabalhar melhor em equipe. Assim, elas influenciam pelo exemplo e constroem times mais colaborativos.
  • São mais flexíveis: a necessidade de equilibrar vida pessoal e profissional desde sempre faz com que mulheres líderes sejam mais favoráveis à flexibilidade na rotina de trabalho. A compreensão acaba criando uma facilidade maior de adaptação quando há a necessidade de romper padrões e encontrar respostas alternativas.
  • São mais empáticas: uma maior sensibilidade resulta em maior capacidade de se colocar no lugar do outro. Líderes mulheres percebem melhor as dores e necessidades alheias e pensam em oportunidades de atendê-las: uma característica essencial no trato com clientes, por exemplo.
  • São mais comunicativas: além da flexibilidade, a liderança feminina é marcada também, em sua maioria, pela escuta ativa e pela comunicação não violenta. Com isso, as gestoras conquistam a confiança de seus times e constroem melhores relacionamentos. Essa melhor desenvoltura comunicativa pode garantir maior sucesso ao negociar com fornecedores, parceiros, investidores e clientes, por exemplo.
  • São mais acessíveis: abertas a feedbacks e a ajuda mútua entre funcionários, as líderes mulheres proporcionam ambientes mais acolhedores. Com isso, o clima organizacional ganha ares mais leves e, entre outras tantas vantagens, isso aumenta a retenção de talentos. Pode-se atribuir esses benefícios ao fato de que, em geral, mulheres tendem a ser menos autoritárias e agressivas quando em cargos de liderança.

Por fim, o que fazer pela promoção da liderança feminina?

Com tantas justificativas, dados e informações sobre liderança feminina, não há desculpa para que empresas e funcionários não defendam políticas contra a desigualdade de gênero, certo?

Atitudes práticas em prol dessa causa são essenciais. Portanto, apoie movimentos que lutam pela diversidade e contra a violência e descriminação; incentive a sua companhia a adotar medidas reais de reparação para atingir números mais iguais entre seus quadros de liderança; não fique em silêncio quando presenciar injustiças de qualquer tipo.

Um mundo mais igual e inclusivo é o melhor para todos nós.

É o que a Pluralità deseja.

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